quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Transtornos da aprendizagem e a necessidade de avaliação neuropsicológica


O transtorno da aprendizagem é um distúrbio neurobiológico no qual o indivíduo acometido apresenta dificuldades significativas em leitura, aritmética e/ou na escrita não justificadas pela sua capacidade cognitiva global. Essas dificuldades provêm de um funcionamento cerebral atípico, os indivíduos processam e adquirem informações de forma diferente daquela esperada para crianças ou adultos que podem aprender sem maiores dificuldades. Esse transtorno pode se manifestar na vida acadêmica como dificuldades em compreensão de textos, cálculos, raciocínio lógico, soletração, ortografia e outros.


Existem varias formas de funcionamento atípico do cérebro que podem causar um transtorno da aprendizagem. Pesquisas mostram que no caso da dislexia, há um funcionamento atípico de áreas cerebrais envolvidas no processamento fonológico, na nomeação rápida e em sistemas visuais. No caso da discalculia, um TA que afeta as habilidades de calculo e o raciocínio lógico, pesquisas recentes usando neuroimagem constatam que há um funcionamento atípico de áreas responsáveis pelo processamento lingüístico.


Transtornos da aprendizagem podem estar associados a varias outras patologias, tais como: transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, Transtorno opositivo desafiador, distúrbios neurológicos e outros. Ter um transtorno da aprendizagem pode fazer com que um indivíduo tenha sintomas depressivos e ansiosos clinicamente significativos derivados do seu baixo rendimento escolar e de dificuldades de socialização principalmente no âmbito acadêmico. Entretanto cabe ressaltar que esses transtornos não são predominantemente emocionais e nem causados por distúrbios afetivos.


Quando se suspeita da presença de um transtorno da aprendizagem, a avaliação neuropsicológica é de extrema importância. Através do exame das funções cognitivas envolvidas no TA tais como: Linguagem, Habilidades viso-perceptivas, memória, velocidade de processamento e raciocínio lógico. Podemos estabelecer com mais precisão o diagnóstico. Outra informação de extrema relevância que pode ser obtida através da avaliação neuropsicológica é a capacidade cognitiva global, segundo os critérios diagnósticos deve-se excluir a presença de déficit cognitivo.

O transtorno da aprendizagem é crônico, e pode trazer dificuldades na vida social, acadêmica e profissional. Sendo assim uma identificação precoce do quadro, com uma avaliação neuropsicológica pode ser relevante para a orientação de condutas terapêuticas adequadas e dessa forma proporcionar um melhor prognóstico.
Referências:
C.H. Silver et al. Learning disabilities: The need for neuropsychological evaluation. Archives of clinical neuropsychology, 23, 2008, p. 217-219
Kirby, J. R., Parrila, R. K., & Pfeiffer, S. L. (2003). Naming speed and phonological awareness as predictors of reading development. Journal of Educational Psychology, 95, 453–464.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Origem dos Testes de Inteligência



O movimento que deu origem aos testes de inteligência se iniciou com o trabalho do psicólogo francês Alfred Binet (1857- 1911). Seus estudos foram motivados por uma lei do governo francês que exigia o ingresso de todas as crianças nas escolas. Com essa nova situação os professores se depararam com uma enorme quantidade de diferenças pessoais. Algumas crianças pareciam ao olhar dos professores incapazes de aprender e outras eram muito mais lentas do que a maioria. Para minimizar as tendenciosidades do julgamento, Binet e outros foram encarregados de desenvolver um instrumento objetivo que pudesse identificar as crianças propensas a terem dificuldades acadêmicas.

Para Binet todas as crianças seguiam o mesmo curso de desenvolvimento, porém algumas mais rápido do que outras. Crianças denominadas por ele “estúpidas” estariam simplesmente atrasadas em seu desenvolvimento, assim em seus testes essas crianças deveriam funcionar como uma criança mais jovem típica. Embasado nessa teoria, foi elaborada uma medida que veio a ser denominada Idade Mental. Uma criança normal teria sua idade cronológica igual a sua idade mental. Para essa mensuração Binet desenvolveu uma série de questões que poderiam prever o rendimento escolar.

Binet e sua equipe não fizeram suposições sobre a razão pela qual uma criança em particular poderia ser mais lenta ou precoce. Ao invés disso adotaram uma explicação ambiental para o fenômeno. Segundo o mesmo as crianças atrasadas deveriam receber “fisioterapia mental”, ou seja, deveriam ser estimuladas a desenvolver suas habilidades.

Em 1911, Lewis Terman tentou usar o teste de Binet, entretanto descobriu que as normas para a idade mental desenvolvidas na frança não se aplicavam as crianças americanas. Terman modificou o instrumento e estendeu o seu limite de idade para avaliação. Este revisão recebeu o nome até hoje conservado de Standford-Binet.

A partir desses testes o alemão William Stern criou o Quociente de Inteligência, QI. O QI de Stern nada mais era do que a idade mental dividida pela idade cronológica multiplicada por 100. Dessa forma crianças normais, com idades cronológicas e mentais iguais tinham o QI igual a 100.

A maioria dos testes atuais para inteligência não utiliza mais o QI em sua formula original. Entretanto os testes atuais definem os escores de forma que 100 é a média, sendo que dois terços das pessoas estão situadas entre 85 e 115. É notório que mesmo não existindo um quociente de inteligência, o termo QI é amplamente utilizado com uma forma de expressão abreviada para teste de inteligência.

Referências

Myers D. Psicologia. Holland, Michigan. LTC.,2006. p. 308-310
Primi R. Inteligência: Avanços nos modelos teóricos e nos instrumento de medida. Avaliação Psicológica, 2003,1,pp. 66-77

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Inteligência


O termo inteligência é amplamente utilizado em vários contextos, porém seus significados são variáveis. Podemos utilizar o termo inteligência para nos referirmos à capacidade mental natural de um individuo, um nível de desempenho intelectual atingível, uma qualidade, entre outros. Inteligência é um conceito socialmente construído, no qual culturas diferentes julgam inteligente qualquer fator que facilite o sucesso. Em nossa cultura esse termo representa uma performance superior em tarefas cognitivas. Segundo alguns especialistas a inteligência não é um constructo único, e sim a habilidade de aprender a partir de uma experiência, resolver problemas e usar o conhecimento para se adaptar a uma nova situação. Sendo assim devemos tomar muito cuidado ao nos referimos ao QI de alguém como um traço real.

Desde a metade dos anos 80, especialistas procuram estender as definições e de inteligência. Howard Gardner em 1988 introduziu o conceito de Inteligências Múltiplas. Em suas observações ele constatou que uma lesão em determinada área cerebral pode diminuir um tipo de competência sem afetar outros. A partir de estudos com pessoas dotadas de competências excepcionais, Gardner afirmou que não temos uma, mas sim múltiplas inteligências. Além das aptidões matemáticas e verbais, temos aptidões para a execução musical, para analise espacial, para o controle motor e para relações interpessoais.

Em 1998 Robert Sternberg concorde das idéias de Gardner, distinguiu três aspectos da inteligência: Inteligência Analítica, que seria a capacidade para resolução de problemas acadêmicos; Inteligência Criativa, que seria a capacidade adaptativa a novas situações e a Inteligência Prática que é necessária para as tarefas quotidianas. Os testes de inteligência tradicionalmente conhecidos avaliam inteligência analítica, que prediz bem o desempenho escolar de um individuo, porém não tem o mesmo valor para a predição de sucesso vocacional. Nas próximas postagens entenderemos porque os testes de inteligência estão historicamente ligados a mensurar habilidades acadêmicas.
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Referências:

Myers D. Psicologia. Holland, Michigan. LTC.,2006. p. 308-310
Primi R. Inteligência: Avanços nos modelos teóricos e nos instrumento de medida. Avaliação Psicológica, 2003,1,pp. 66-77

sábado, 27 de junho de 2009

Aspectos Neuropsicológicos e Biológicos das Dislexias de Desenvolvimento (Parte II)


O interesse da neurologia pelos problemas de leitura iniciou-se em 1890. A partir dessa data advirão vários estudos em busca dos marcadores biológicos da dislexia. Esses estudos são em grande parte de natureza experimental, feitos com pequenas amostras o que torna os seus achados de difícil generalização.

Estudos realizados com células cerebrais de disléxicos postmortem encontraram anomalias de células no córtex cerebral da região silviana esquerda (lobo temporal). Em outro estudo constataram falta da esperada assimetria, no planun temporale, região do hemisfério esquerdo maior que do direito. Esses estudos supõem que o cérebro dos disléxicos tenha sofrido durante a vida intrauterina, alguma agressão de tipo química, hormonal ou imunológica.

A análise de Eletroencefalogramas de disléxicos sugere um problema de maturação cerebral nessas crianças, a desconexão natural dos córtices sensoriais primários, um dos fatores importantes de desenvolvimento cerebral, poderia estar falha nessas crianças.

Em um estudo no qual foi avaliado o fluxo sanguíneo cerebral de disléxicos, por meio de tomografia por emissão de pósitrons (PET), encontrou-se um padrão alterado de ativação no córtex temporal-médio posterior e no córtex parietal inferior, predominantemente no hemisfério esquerdo, durante a realização de tarefas de leitura. Utilizando-se a técnica de ressonância magnética funcional, foram avaliadas crianças japonesas disléxicas. Encontraram alteração na ativação do giro temporal medial e um processamento incomum de ativação bilateral do lobo occiptal e do gira frontal inferior, que poderia indicar diferenças nas funções hemisféricas a fim de compensar as dificuldades de leitura.

Quanto aos fatores hereditários e genéticos, alguns estudos apontam para o possível lócus dos distúrbios de leitura no cromossomo 6. Em estudos com gêmeos, mono e dizigóticos, de 6 e 7 anos encontrou-se uma hereditariedade estimada em 0,60 nas crianças de 6 e 7 anos.

Devemos considerar que a maioria dos estudos citados acima utilizarão técnicas de imagens funcionais do cérebro. Considerando que o funcionamento cerebral depende também da ativação do ambiente, as anomalias apontadas podem ser influenciadas por fatores ambientais. Sendo assim, podem ser remediáveis ou alteradas por meio de intervenções terapêuticas.
Referência:

Salles J., Parente M., Machado S., Interações. Vol. IX. n°17. p. 109-132. jan-jun 2004
Salgado C., Capellini S. Programa de remediação fonológica em escolares com dislexiado desenvolvimento. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2008 jan-mar;20(1).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aspectos Neuropsicológicos e Cognitivos das Dislexias de Desenvolvimento (Parte I)


O estudo dos problemas de leitura é bastante antigo e existem algumas perspectivas teóricas para descrever e explicar os déficits na aprendizagem da leitura em crianças. Usaremos como base na condução do tema a Neuropsicologia infantil, que enfatiza a relação entre as funções cognitivas e as estruturas cerebrais.

O processo de leitura competente envolve fluência e automatismo para reconhecer as palavras e compreender a material lido. O reconhecimento das palavras em um sistema de escrita alfabético pode ocorrer por meio de um processo visual, ou seja, rota lexical de leitura ou por meio de um processo de conversão grafema-fonema, que permitira uma pronuncia precisa das palavras regulares. Na rota lexical as palavras familiares são armazenadas em um léxico de entrada visual, que permite um acesso direto ao significado. No leitor competente, as duas rotas estão disponíveis, porém a rota lexical tem papel central na competência da leitura.

Na perspectiva neuropsicológica as dificuldades de aprendizagem, são entendidas como um conjunto de desordens da aprendizagem escolar que surgem como conseqüência de uma insuficiência de um ou mais sistemas cerebrais. Um pressuposto da abordagem neuropsicológica é o conceito de modularidade. Este propõe que o sistema cognitivo possui vários módulos de processamento cognitivo, um dano em um modulo não afeta diretamente o funcionamento dos demais. Os casos em que alguns processos de leitura estão preservados, como por exemplo, a leitura de palavras familiares e outros como a leitura de não-palavras e pseudo-palavras estão prejudicados enfatizam a modularidade do processamento da informação correspondente a leitura.

Segundo a DSM-IV-TR, o transtorno da leitura consiste em rendimento em leitura inferior ao esperado para a idade, inteligência e escolaridade. As definições de Dislexia estabelecem critérios de comparação entre o nível de leitura e o QI, ressaltando assim a importância do exame neuropsicológico nesse diagnóstico. Outra questão a ser ressaltada é que para o diagnóstico de Dislexia deve se excluir déficit sensorial, meio social muito desfavorável e danos neurológicos. O principal indicador dos déficits da aprendizagem da leitura é a dificuldade em decodificar e analisar fonemas dentro de uma palavra, consciência fonológica.

A estimativa das taxas de prevalência dos distúrbios de leitura na população norte-americana é de 20% e a incidência de dislexia na população geral é estimada em cerca de 10 a 15%. O tipo mais comum é o “Disléxico fonológico” que é caracterizado por uma incapacidade de decodificação fonológica, claramente observada em tarefas de leitura que envolva pseudopalavras e não-palavras. O outro tipo é o “Disléxico de Superfície” que é caracterizado por uma acentuada dificuldade na leitura de palavras irregulares (rota Lexical). Existem também disléxicos mistos, apresentando simultaneamente distúrbios de decodificação fonológica e de processamento ortográfico.

Referência:

Salles J., Parente M., Machado S., Interações. Vol. IX. n°17. p. 109-132. jan-jun 2004
Salgado C., Capellini S. Programa de remediação fonológica em escolares com dislexia
do desenvolvimento. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2008 jan-mar;20(1).